Muita gente acha que Outlander, por se passar na Escócia, é um fenômeno enorme por aqui. E a verdade é que não. Isso costuma surpreender bastante.

A série existe no radar, movimenta a economia e é usada como ferramenta de promoção turística. Mas Outlander é muito mais um fenômeno internacional do que escocês. Em lugares como os Estados Unidos e a América do Sul, por exemplo, ela ganhou uma ampla base de fãs, com engajamento emocional e uma conexão forte com a história e a estética que apresenta.

Já aqui, o envolvimento tende a ser bem mais limitado, e ela simplesmente não engaja tanto. A maioria dos escoceses e escocesas que eu conheço já ouviu falar, mas ou ainda não assistiu, ou assistiu e não gostou, por motivos que explico a seguir. Uma minoria, entre as pessoas com quem já conversei sobre isso, disse gostar da série.

Existem várias razões para isso, e nenhuma delas, isoladamente, explica por que alguém gosta ou não da série, já que gosto é sempre pessoal. Mas, juntas, ajudam a entender por que Outlander não fez, aqui, o mesmo sucesso que fez fora.

Uma das razões é o nível de violência. A série tem cenas bastante pesadas, incluindo abuso e sofrimento prolongado de personagens, o que naturalmente afasta parte do público. É, inclusive, o que me mais me incomoda. 

Outro ponto importante tem a ver com exotização e familiaridade. Para quem está de fora, elementos como kilts, clãs, castelos e paisagens das Highlands funcionam como um imaginário quase fantástico, carregado de romantização. Existe um encantamento real com esse universo.

Já para quem vive aqui, esses elementos não causam o mesmo impacto de descoberta. Não é que não sejam valorizados, mas não são novidade. E muitas vezes a forma como são retratados na série não parece especialmente sofisticada ou aprofundada.

Também tem a questão da romantização histórica. Outlander simplifica conflitos, dramatiza relações entre clãs e constrói uma narrativa emocional centrada nos personagens. Em alguns casos, a série reforça interpretações equivocadas, como a ideia de que os jacobitas lutavam pela independência da Escócia. Isso não é feito de forma direta, mas ao misturar a causa jacobita com uma linguagem de liberdade, perda de independência e defesa da cultura Highlander, acaba levando parte do público a interpretar a revolta como uma luta nacional escocesa contra a Inglaterra, o que é historicamente incorreto.

Há pelo menos um exemplo claro: no episódio final da 2ª temporada, o discurso de Geillis, já no século XX, fala de independência escocesa e diz que, quando a Escócia se uniu à Inglaterra sob uma só coroa, “foi o começo do fim”, e que “perdemos mais do que nossa independência”. Isso é nacionalismo escocês moderno dentro da série, não uma explicação correta da causa jacobita de 1745.

Esse tipo de coisa incomoda quem conhece bem a história real e suas nuances.

Tem também outro fator: saturação. Quem vive na Escócia já está constantemente exposto à própria história, às paisagens e aos símbolos culturais. Então a série não traz necessariamente algo novo, mas uma releitura desses elementos, muitas vezes filtrada por uma narrativa mais dramática e romantizada.

Além disso, Outlander é, essencialmente, um olhar de fora sobre a Escócia. Foi pensada para um público internacional, e isso aparece na forma como a cultura é apresentada. Para quem está assistindo de fora, isso cria fascínio e encantamento. Para quem está aqui, pode parecer uma versão mais “exportável” da própria história, nem sempre representativa da complexidade real. 

Ou seja, na Escócia, a série é reconhecida, tem impacto prático no turismo, mas não gerou o mesmo nível de identificação ou entusiasmo que gerou em outros lugares. 

Dito (tudo) isso, claro que existem pessoas aqui na Escócia que gostam da série, e existem fãs também. Mas, proporcionalmente, em número bem menor do que se vê no Brasil ou nos Estados Unidos. 

E é curioso observar como muita gente aqui nem chegou até a série pelo caminho direto, e sim por causa do impacto que ela teve no turismo local. Tenho uma amiga que descobriu que Outlander existia ao ver um mural quando visitou um castelo, e aí ficou curiosa para assistir.

No fim, gosto é sempre pessoal. Mas, numa leitura mais ampla, culturalmente falando, Outlander de fato não teve o mesmo tipo de sucesso aqui dentro que teve fora.