Diário de um acampamento na Escócia

A primeira vez que acampei aqui na Escócia, foi no início de abril. O lugar era lindo, mas eu aprendi 2 importantes lições: 1. Não se acampa em abril; 2. Isolamento térmico é tudo na vida!

Embora durante o dia as temperaturas ficassem agradavelmente acima dos 10 graus (impossível não se animar), durante a noite elas despencavam. E eu quase congelei por falta de isolamento térmico. Joguei todas as cobertas e metade do meu saco de dormir pra cima do filhote, e fiquei enrolada na outra metade, sem conseguir dormir de tanto que tremia. O frio vinha do chão, parecia que eu estava deitada sobre um bloco de gelo. No dia seguinte, com chuva, voltamos pra casa.

Mas agora é verão (hahahaha, sempre rio quando escrevo essa palavra aqui!), ou seja, a melhor época do ano para acampar, certo?? Certo sim!!! Principalmente com um bom isolamento a tiracolo (item indispensável de acampamento na Escócia #1).

Então, de novo, fui me aventurar com as mesmas companhias do acampamento anterior: uma amiga e nossos filhinhos, ambos com 4 anos de idade.

Antes de passar ao relato do nosso acampamento, preciso comentar que o que mais me encanta nisso tudo é o fato de podermos sair por aí acampando sozinhas com duas crianças sem medo de absolutamente nada!! (Bom, no meu caso, sempre existe o medo de uma abdução alienígena, mas isso são outros 500s…)

No Brasil, eu jamais teria coragem de fazer isso, mas aqui me sinto completamente segura. Podemos sair explorando à vontade, entrar em qualquer ruazinha, subir qualquer colina, fazer qualquer trilha, caminhar livres pela natureza. É só tomar o cuidado de não sair encostando em pedras mágicas que fica tudo certo!!

Ah, mas então não existe violência na Escócia? Existe, claro, em todo lugar do mundo. Onde há humanos, há risco de violência. Mas, para quem vem do Brasil, e principalmente para quem já sofreu algum tipo de violência por lá, a comparação não é nem válida e chega a ser ridícula.

Desta vez, acampamos no Loch Lubnaig, que fica dentro do Parque Nacional do Loch Lomond & Trossachs. Toda aquela região é muito bonita, e cheia de lochs, bosques e vilarejos para explorar.

Loch Lubnaig

Da vez anterior, havia sido na Sallochy Bay, às margens do Loch Lomond, que é muito maior:

Sallochy Bay

A fogueira

Fazer uma fogueira para assar marshmallows com os meninos é obrigatório. No nosso outro acampamento não foi tão difícil. Mas, desta vez, passamos dificuldade. O frio e a umidade não ajudaram, e ficamos um tempão tentando, gastando fósforos, soprando, queimando papel, palhinhas, tudo em vão. Tivemos que sair do acampamento e ir até o supermercado mais próximo comprar um pacote de fire starters, não teve jeito. Na saída do acampamento, tinha uma placa indicando que, em caso de fogo, era para seguir por ali. Achamos altamente improvável de acontecer. Item indispensável para acampamentos na Escócia #2: fire starters. Porque simples habilidades escoteiras, aqui, não bastam.

Midges

Lá venho eu, traumatizada, falar dos temíveis midges. Mas não há como fugir deles. Verão (hahaha!!), Escócia, acampamento… pode apostar que vai ter midges sim!!! A não ser que esteja ventando muito, mas se estiver ruim pra eles, vai estar ruim para nós também, então o jeito é aprender a conviver com essas desgraças de mosquitinhos. Item indispensável de acampamentos na Escócia #3: repelente específico para midges. Passe por tudo. Até no cabelo, porque eles mordem o couro cabeludo também. Você ainda vai comer alguns e levar umas picadas, mas bem menos.

Vida na Escócia recomenda

Existem também umas redes de colocar na cabeça, como essa da foto:

E luvas:

Para que as mãos não fiquem assim:

Existem até trajes completos:

Mas, sinceramente, se chegar a esse ponto, eu prefiro bater em retirada. Porque minha vontade de acampar é menor do que minha disposição para me fantasiar de apicultora.

Trilhas:

Se tem uma coisa que não falta na Escócia (além de midges) são trilhas ecológicas. Fizemos uma que passava por uma colina com vista para um vilarejo e chegava até um cachoeira e uma ponte. Depois seguimos adiante para chegar mais perto do rio, e passamos um bom tempo ali, curtindo o sol, a natureza, o ambiente todo. A água estava gelada, mas os mais corajosos entre nós colocaram os pés nela.

Ponte de madeira

Esta cachoeira me pareceu estranha. As pedras parecem cortadas. Fiquei com a impressão de que poderia ter sido algum tipo de represa e que foi reaberta posteriormente

Noite

(escrito de madrugada, no celular, depois de ser acordada pela sexta rajada de vento)

Acordo com gotas de chuva no teto da barraca. Está escuro, o que me faz concluir que já é, pelo menos, mais de meia-noite, porque anoitece tarde no verão escoces. As gotas param e, em seguida, escuto o vento, mas não há vento. Logo entendo: ele está vindo.

O barulho vai ficando mais alto à medida que ele se aproxima, passando pelas curvas estreitas do vale onde se encontra o Loch. Quando nos atinge, o som é altíssimo, e o teto da barraca se curva, em respeito medroso ao elemento ar. Tudo treme e se inclina. Meu filho acorda, assustado. Penso nos pinos frouxos, que coloquei com desleixo naquela tarde, e calculo se nosso peso ali dentro será suficiente para evitar que esse filhote de furacão tire nosso abrigo do lugar. Espero que sim, porque está gelado lá fora e eu detestaria ter que sair do meu ninho quentinho de edredom. O vento para. Escutamos ele ir embora.

Silêncio. Só o barulho das pequenas ondas do lago. A chuva volta. “Escócia e seu tempo louco alternante”, eu penso. É até capaz que o sol apareça, muito embora seja noite. Volto a dormir, até sonhar com um trem que se aproxima. Mas é só uma nova rajada de vento vindo pelo vale, prestes a nos atropelar. Mais uma das muitas que virão. Apenas mais uma noite “tranquila” de acampamento de verão.

Logo antes do amanhecer, escutamos um barulho de algo grande pulando na água. Não entendemos o que poderia ser. Um pato gigante, uma lontra, um escocês maluco ou um monstro do lago? Registro aqui este mistério.

Quanto às noites, é muito difícil dormir bem, não adianta. Mas aventura é aventura.

Row, row, row your boat:

Em um dos dias lindos de sol que tivemos a sorte de pegar, resolvemos ir até outro lago, mais isolado e mais para o meio do parque, e fazer um passeio de bote com as crianças, porque somos mães aventureiras destemidas.

Caminhos

Vistas

Antes do exercício, paramos em uma simpática Casa de Chás (também no meio do nada, o que a torna mais encantadora) para um lanche:

Fui acometida por hipster feelings e resolvi bater foto da comida:

Mas, como vocês podem perceber, não possuo as técnicas e filtros necessários.

Enquanto comíamos nosso snack super saudável e cheio de caramelo em uma mesinha à beira do lago (ó vida….), percebemos que não havia nenhum barco nele. Pensando agora, isso era um sinal óbvio de que devíamos ter deixado a ideia para outro dia, mas nossa natureza destemida e otimista (aham!) escolheu ignorar. Afinal, o local era relativamente isolado mesmo, então normal que não houvesse ninguém no lago.

E lá fomos nós, contentes, cada uma em um barco com uma criança, remos a postos, e o objetivo era chegar até uma ilha do lago que se encontrava à direita de onde saímos, explorá-la, e depois voltar ao ponto de partida. Muito simples. Só que, assim que nos afastamos um pouco da costa, percebemos que não havia como virar a frente do barco para a direção certa. Eu expliquei uma vez, em um artigo sobre o Monstro do Lago Ness, que muitas vezes, nesses lochs de águas profundas, as correntes de baixo se movem em direção contrária às de cima, que são movidas pelo vento, formando uma série de ondas estranhas e correntes invisíveis. Nossa força não era suficiente para vencê-las e virar o barco para o lado certo. E assim que, mesmo remando loucamente, fomos arrastadas para muito longe de onde queríamos. Tivemos a ideia de nos aproximar de outra ilha, para a esquerda. Conseguimos. Mas não adiantou muito, porque assim que nos afastávamos dela, a corrente e as ondas nos empurravam de novo para o lado errado. Ficou claro que jamais conseguiríamos retornar. Ou seja: que fria!!

Eu não deveria ter tirado fotos da situação porque ela era crítica e eu precisava remar e remar e remar e remar loucamente, mas não resisti:

Pedro, analisando a situação.

Me avisando que íamos bater.

Mas deu tudo certo, tivemos um resgate eficiente e demos boas gargalhadas da nossa encrenca. Os meninos acharam o máximo a coisa toda. O homem que nos resgatou, assim que subiu o Pedro à bordo, colocou as mãos nos ombros dele e perguntou: “Tudo certo com você, wee lad?”. E Pedro respondeu: “Sim, estou bem, mas minha mãe não conseguia remar direito”. Nosso heroi tinha uns ares de Gordon Ramsay, inclusive nas caras de bravo, o que me fez pedir mil desculpas pelo transtorno de ter que nos resgatar. Ele disse: “Nae bother. Mas só vim por causa das crianças, porque se estivessem só vocês duas, tinha deixado ilhadas!”. Respondi que era por isso que eu sempre andava com uma criança a tiracolo, e ele deu uma gargalhada. Depois, em terra, nos consolaram, dizendo que estava mesmo impossível. Mas acho que o pensamento real deles era: “que fracotes!”

Lição aprendida: não saia remando em um lago escocês com crianças sem antes conferir adequadamente se as correntes estão tranquilas e favoráveis. Item indispensável de acampamento na Escócia #4: Bom-senso.

“Eu poderia ter ajudado a minha mãe, se meu remo não estivesse quebrado”

Inchmahome Priory

O dia seguinte amanheceu lindo de novo, então resolvemos ir até uma ilha, no meio de um lago, onde ficam as ruínas de um mosteiro medieval. Quando contamos para os meninos que iríamos até uma ilha, os dois fizeram caras de leve incredulidade, e o Pedro me perguntou “Mas vocês que vão remar de novo?” E quando eu disse que não, que seria um moço, em um barco a motor, ele pareceu aliviado!

“Ufa!”

A ilha é pequena, e é possível caminhar por ela toda, pelas trilhas:

Ruínas do monastério

O monastério foi construído em 1238, e hoje está sob os cuidados da Historic Scotland. A visitação, incluíndo o trajeto de barco, é grátis para membros.

Eles precisam parar de avisar os lugares onde Mary esteve e começar a indicar apenas os que ela NÃO esteve. Sério, essa mulher esteve por tudo. Coisa incrível… #inveja

Quando voltamos da ilha e descemos do barco, o Pedro me perguntou “Agora estamos de volta à Escócia?”. E aí eu expliquei que aquela ilha também era na Escócia, que tudo ao nosso redor era Escócia, e que havíamos estado sempre na Escócia durante todo o acampamento. Ele arregalou os olhos e exclamou: “Tudo isso é a Escócia?? Uau… it’s huuuge!”

No aguardo para quando ele se der conta do tamanho do Brasil.

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6 Comentários

  1. Luciana Silva

    Que legal! ADOREI o texto e a bela história, experiências assim são as coisas que realmente interessam e que ficam da nossa vida. Que bom que vocês dois possuem esse espírito livre, já e 100% de uma vida feliz.
    Aguardo ansiosa o relato das próximas peripécias, Anelise, seu blog é um bálsamo na nossa vida. Beijinho!

    • Anelise

      Obrigada, querida!! 😀
      Concordo que essas experiências valem ouro, mesmo com alguns apertos causados por excesso de espírito aventureiro, hahahaha.
      Beijos!!!!

  2. Silvia

    Anelise! Adorei o texto! Lindooo lugar! Lindas fotos! O Pedro está muito fofo!!! E é justamente isso que me encanta demais na Escócia: a liberdade para viver e curtir a natureza, os filhos e os amigos!!! Parabéns! Beijos

    • Anelise

      Obrigada, Silvia!!!
      Sim, que coisa maravilhosa poder andar por aí livremente, em meio a toda essa natureza incrível. Muito amor pela Escócia! <3
      Beijos!!

  3. Teresinha

    Pois é… alguém imagina duas mulheres e duas crianças acampando em alguma parte deste Brasil?
    Lindo relato

  4. Rafaela

    Eu já falei que amo teus textos??? Mas este é incrível!! bjss

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