Sendo mãe de criança pequena na Escócia – Parte 2: Como planejar a alimentação de uma criança pequena em outro país?

Depois que eu saí de casa, com 26 anos, fui morar sozinha e assim fiquei por mais ou menos 10 anos. Eu achava chato cozinhar só para mim e também passava muito tempo no hospital, fazendo as minhas refeições por lá mesmo. Além do mais, não fui daquelas pessoas abençoadas com dotes culinários, embora eu adore ler sobre comida e experimentar novos sabores. Aliás, no meu doutorado avaliei o efeito de algumas intervenções dietéticas sobre a saúde cardiovascular, mais especificamente, do azeite de oliva e da noz pecã.

Bom, quando a Milena chegou, piscou meu sinal de alerta sobre o assunto. Contei com a ajuda da minha sogra e da tia do meu marido (que foi babá da Milena por nove meses), que tinham muita habilidade na cozinha, durante a introdução alimentar. Além de observá-las pilotando o fogão, peguei meu caderninho de receitas e fui anotando tudo, até como cozinhar a couve-flor (esse era o meu nível!). Mas quando me vi sozinha em Aberdeen, com um mundo de opções à minha frente, bloqueei. Sem contar que a Milena ficou rejeitando qualquer tipo de comida que eu oferecesse durante as primeiras duas semanas. Um pavor. Uma noite, depois que eu havia passado umas duas horas na cozinha preparando arroz, lentilha, um franguinho e cenoura cozida e ela não quis nada, fui chorar no quarto.

Buscando inspiração

Recorri a mãe, amigas e à internet em busca de inspiração e foi quando encontrei muitas ideias legais e fáceis no Instagram brasileiro do Comidinhas da Diana. Foi um achado, pois eu não tinha nem a iniciativa de incrementar nem um arroz branco (e lá ela sugere arroz com espinafre, com cenoura, com brócolis, com lentilha, por exemplo…) era o que eu precisava! E aos pouquinhos fui acertando a mão, experimentando, oferecendo uma alimentação saudável com comidinha caseira, bem como eu queria…um grande aprendizado.  Esse ano, encontrei aqui um livrinho muito legal, que propõe que as crianças participem da elaboração das receitas (que dão certo! Já testei várias!), o The Tickle Fingers, da Annabel Woolmer.

Receita do livro.

 

Milena cozinhando.

Indo às compras

O que ajudou muito é que se encontra de tudo por aqui. As verduras e os legumes por aqui são muito gostosos. Mas não são muito baratos:  o quilo da batata custa por volta de 1 libra, bem como um maço de espinafre (quando chegamos aqui, equivalia a mais ou menos R$ 6,50!). Elegi a cenoura o meu legume coringa, cujo quilo custa 40 centavos e é muuuito saborosa. Brócolis também custa esse valor e comemos com frequência. Outro alimento que começamos a ingerir muito mais do que no Brasil, foi o peixe, pelo menos uma vez por semana. Salmão e bacalhau (frescos) são nossos favoritos. A massa, no momento, é o carboidrato favorito da Milena. Comecei oferecendo um em formato de estrelinha, que ela adorava com espinafre e peito de frango. A batata doce (branca ou amarela, sendo essa última uma novidade para mim) assada com azeite de oliva também é sucesso garantido. Aqui tem uma tuberosa muito popular, chamada Turnip, mas achei muito dura para cortar e não achei tão saborosa.

Turnip. Fonte: Wikipedia.

Snacks

Diversificar os lanchinhos também era um desafio. Além das frutas (se encontra de tudo por aqui), há uma grande variedade de cookies, biscoitos, barrinhas de cereais e frutas secas, orgânicos, adequados para crianças pequenas. Marcas que compramos com uma certa frequência são: “Organix Goodies” e “Ella´s Kitchen”. Passei a fazer em casa o pão, as cookies e as panquecas escocesas, que são bem legais para uma tarde chuvosa. Acho que o que faz diferença é que a farinha e o fermento daqui são muito bons…tudo dá certo…nunca mais tive um bolo abatumado! O mingau de aveia (o famoso “porridge”) é super bem aceito aqui por casa, e é uma presença obrigatória nos menus de breakfeast. Aliás, encontra-se aveia nas mais variadas apresentações. Também aprendi que se pode oferecer legumes, como pepino e tomate, como lanche.

Minhas panquecas com Golden Syrup.

Comendo fora

Comer fora era um dos poucos momentos de lazer no nosso início de vida na Escócia. Mas eu estava ainda com a ideia de oferecer só a comida feita por mim ou algo específico para bebê, o que era motivo de estresse. Eu levava a comidinha pronta em uma sacola térmica, entretanto, por alguma questão de segurança, eles não aquecem alimentos trazidos pelos clientes. Então, encontramos dois restaurantes que oferecem uma “Baby Station”, onde se disponibilizava um forno de micro-ondas e um aquecedor de mamadeiras, mas em nenhuma vez ela quis a comida requentada. Foi aí que resolvemos pedir uma omelete na Patisserie Valerie e a fina da minha filha comeu TUDO (acho que devia ter uns seis ovos). Depois disso, passamos a explorar os “Menus Kids” e descobrimos boas opções, como salmão grelhado com purê de batatas do restaurante Giraffe e as diversas versões do Maccaroni Cheese. Geralmente, os acompanhamentos são cenouras e pepinos crus cortados em tiras ou ervilhas. Outra opção bastante popular por aqui são as salsichas. Nesses lugares, mais voltados para famílias, eles oferecem folhetos para colorir, adesivos e balões, o que ajuda os pequenos a se distrair enquanto a refeição não chega. Por exemplo, restaurantes e cafés que já fomos mais de uma vez por essas razões são: Giraffe, Zizzi, Ask Italian, Pizza Express, Frank & Benny, Bella Italia e Brig O´Don.

Milena no Ask Italian.

Relaxei e fui ser feliz, mantendo a dieta da semana sempre bem balanceada.

Resumindo, minha relação com a cozinha melhorou consideravelmente durante esse tempo na Escócia e agora consigo fazer uma comidinha que a Milena gosta e pede para repetir, o que me deixa muito feliz. Ainda não sou totalmente confiante nas minhas habilidades como cozinheira, mas estou mais curiosa, com mais vontade de experimentar novas receitas e confirmei o que os cozinheiros experientes sempre aconselham: usar ingredientes de boa qualidade (obrigada, Escócia!), pois eles são o primeiro passo para o sucesso.

Anteriores

Sendo mãe de criança pequena na Escócia – Parte 1: Como vestir uma criança no frio?

Próximo

Diário de um acampamento na Escócia

2 Comentários

  1. Dinair

    Uau vc é 10.
    Lutou e venceu ….parabéns. !!!!!
    Amei a Escócia ❤
    Ah e os restaurantes tb…rsrs
    Vc se tornou um exemplo pra muitas mocinhas que acham a cozinha a inimiga nossa.
    Gde abraço e felicidades nesse país lindoooooo

    • Silvia

      Dinair!!
      Obrigada pelos comentários!! Adorei!! Para mim foi uma grande conquista e uma realização! Beijos

Deixe uma resposta

Desenvolvido em WordPress & Tema por Anders Norén