A saga da carteira de motorista

Quando eu tinha 17 anos, eu estudava nos Estados Unidos, e tirei uma carteira de motorista de lá. Lembro que passei de primeira no exame teórico, mas rodei no prático porque não olhei por cima do ombro na hora de trocar de faixa. Passei na segunda tentativa, e acabei usando essa carteira americana por muito tempo, mesmo no Brasil. Só aos 20 anos eu fiz a carteira de motorista brasileira. Passei de primeira em ambos os testes, e lembro que foi muito tranquilo. E, essa semana, com …. err….. pouco mais de 30 anos (vamos deixar assim) eu finalmente cheguei ao fim da Odisseia que foi tirar a carteira de motorista do Reino Unido. Desses 3 países, achei o teste daqui o mais rigoroso.

Quem vem do Brasil, tem que fazer tudo desde o início: primeiro pedir uma provisional driving licence, que serve para você dirigir acompanhado de alguém que já possua carteira de motorista do UK.  Também precisa dessa licence para fazer o exame teórico.

O exame teórico é dividido em duas partes: uma em que você responde as perguntas de regras do trânsito, e outra em que você assiste um vídeo interativo simulando um carro em uma estrada, e precisa clicar toda vez que perceber algum perigo ou necessidade de ação por parte do motorista (Hazard Perception). Para as regras, tem que estudar o Highway Code. Já a parte do Hazard Perception é bastante lógica, de atenção mesmo, mas existe um aplicativo do Departamento de Trânsito que, além de ter regras e exercícios, tem também um simulado com vídeos, para a pessoa treinar.

Achei o teste bem tranquilo, eles dão bastante tempo pra fazer e é tudo muito organizado. Na parte do Hazard Perception, foram vários vídeos com diferentes situações, e teve uma pela qual morri de amores: estava dirigindo em uma estrada rural e uma manada de renas atravessou correndo a estrada.

Quem tem curiosidade de saber como é essa parte do teste, pode ver aqui: https://www.theory-test-online.co.uk/free-hazard-perception-test-demo.htm

Eu errei apenas uma questão do teste teórico. Então, muito otimista e cheia de auto-confiança, resolvi fazer logo o teste prático. “Vai ser moleza”, pensei, “eu dirijo há tanto tempo, e já tenho DUAS carteiras de motorista!” (me imaginem dizendo isso como a Rochele de Todo Mundo Odeio o Chris, quando falava “Meu marido tem DOIS empregos!”).

Mas, quando eu estava saindo de casa para ir até o Centro de Testes, percebi um sinal do universo: o pneu do carro estava no chão. Flat, como dizem por aqui. Fui direto para a pequena oficina mecânica do vilarejo onde moro, já imaginando que ia perder a hora do teste, mas pelo menos resolveria o pneu. Contei pro pessoal que era um azar, porque eu estava indo justamente fazer meu teste, e eles foram MUITO queridos. Me perguntaram que horas era o teste, me disseram “vai dar tempo!!”, e agilizaram. Enquanto um deles trocava o pneu, o outro me dava dicas. Depois conferiram todas as luzes pra mim (que eles conferem no teste) e me perguntaram se eu tinha alguma dúvida de óleo, água, etcs, se eu sabia onde estava tudo (porque também podem perguntar no teste).

E lá fui eu, pro teste, sob acenos e desejos de boa sorte daqueles escoceses queridos. Prometi voltar depois, pra ter um diagnóstico do meu pneu flat e pra contar se tinha passado. Cheguei a tempo, fiz o teste bem tranquila e…. rodei. Porque não respeitei as regras de rótulas. As rótulas daqui têm várias faixas, e mesmo quando não têm,  a gente tem que imaginar que têm e seguir as faixas certas. Algumas rótulas daqui também possuem rótulas dentro delas. Sem falar nas mini-rótulas, uma categoria à parte. Também não dei os sinais corretos pra entrar e sair das rótulas e, enfim…. rótulas!!! E eu venho de uma cidade no Brasil que praticamente só tem rótulas… Shame on me!

Rótulas dentro de rótulas… como lidar?!

Voltei à oficina, onde eles já me receberam com sorriso e caras de “passou, né?”. E então fui consolada pelos escoceses simpáticos da mecânica, que não só não me cobraram nada pelo pneu que consertaram como também me passaram o telefone de um instrutor de direção.

Meu instrutor, um senhor escocês nacionalista, de cabelos completamente brancos, e fã de Outlander (para minha surpresa!) fez com que eu ficasse fera em rótulas. Foram muitas horas de direção pelas estradas de Fife, conversando sobre castelos e sobre as vantagens e desvantagens de uma Escócia independente (adoro esses papos!!). Eu também tinha vários pequenos vícios de direção que ele percebeu e me ajudou a consertar. Por exemplo, tive que parar de olhar sobre o ombro antes de trocar de faixa (como os EUA me ensinaram), entre outras manias. E, depois de um tempo, marquei um segundo teste. E rodei de novo. Porque estava em uma estrada que tinha 3 placas de limite, uma atrás da outra: 40mph – 20mph – 40mph. Eu fiquei confusa sobre qual seguir, e todo mundo à minha volta estava indo a 40 mph. Na dúvida, baixei para uns 25mph quando passei pela de 20mph, mas em seguida veio a de 40 e acelerei de novo. Rodei porque devia ter baixado até 20mph. Rodei por 5mph.

E aí fui descobrindo o quanto eles são rigorosos. Para me consolar (embora tenha servido para me assustar), meu instrutor começou a me contar todos os motivos pelos quais eles rodam as pessoas ou dão faltas pequenas (que, acumuladas, fazem rodar também). E comecei a contar para as pessoas que não conseguia passar nesse teste, e escutava histórias que me deixavam mais desesperançosa ainda. Um amigo rodou porque estava indo, na chuva, a 30mph em uma estrada de 40mph. Ele achou que seria sensato ir mais devagar por causa da chuva, mas rodou por ter sido cauteloso. Outra rodou porque entrou muito rápido na rodovia (que estava livre, segundo ela). Ou seja, eles rodam se for cauteloso mas também rodam se for ousado. Se der o sinal com muita antecedência, leva falta, se der com pouca, falta também. Se demorar muito pra tirar o pé da embreagem depois de trocar a marcha, falta. Se fizer barulho quando puxar o freio de mão, falta. Tudo leva falta. Meu instrutor me contou que uma aluna demorou 10 testes pra passar. Me imaginei demorando uns 15….

E lá fui eu para a terceira tentativa, já preparada para escutar, de novo, “I am sorry, but you didn’t pass.” (em sotaque escocês, claro: sorrry). Fiz uma curva em segunda e o carro deu uma reclamada (rodei, pensei!). Esperei um espaço maior antes de entrar na rótula (rodei, pensei de novo). Percebi que estava indo a 35mph na estrada de 40mph (rodei). Fiz baliza mas tive que arrumar um pouquinho (rodei muito). Enfim, o teste chegou ao fim, mas ao invês do sorrry de sempre, ela disse: “ok, the test is over and you have passed”. Passei!!!! Levei um tempo pra acreditar. E ali, na hora mesmo, enquanto minha ficha caía, a examinadora foi assinando o certificado que vale como carteira até a oficial chegar, pelo correio, semanas depois. E me entregou, junto, uma revistinha direcionada para jovens motoristas (ahá!!), com dicas e modelos joviais.

Eu sei que não parece uma super conquista, mas quando a gente migra, e tem que passar por todas essas coisas de novo, é motivo de festa sim. Eu tive que me despir da minha arrogância do “eu sei dirigir” e aceitar que o meu “bom” não era suficiente aqui. Tive que enxergar e consertar uma porção de erros que eu não sabia que existiam, e confesso que todo esse processo de tirar a carteira de motorista foi um pouco terapêutico também. Comecei por dirigir do lado “errado” e internalizá-lo como certo, e terminei por entender que não interessa tudo que fiz ou vivi antes, ou quantas carteiras de motorista eu tenho. Quando a gente muda de país, a gente meio que nasce de novo, e tem que recomeçar muita coisa, em pequenos e persistentes passos. E essa semana eu fui a adolescente que pôde tirar a plaquinha com a letra “L” do carro e sair por aí livremente.

Essa não sou eu, mas é o retrato de como me sinto nesse momento! 😀

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2 Comentários

  1. Fernanda Gomes

    Ane, a única tentativa de direção que tive no Brasil foi, vamos colocar assim, mais de uma década atras, no teu carro lembra?
    Uma tarde levaste eu e mais uma amiga para termos ao menos uma noção de como dirigir, caso um dia nos encontrássemos em alguma urgência…
    Anos mais tarde, tive minhas primeiras aulas de direção e tirei minha primeira carteira aqui na Inglaterra. Gabaritei na prova teórica e só passei na prática na quarta tentativa. Todo mundo fala que no Brasil é bem mais fácil de passar. Mas, sabe de uma coisa? assim que finalmente passei no teste, saí dirigindo por aí sozinha e com toda comfiança fo mundo!

    • Anelise

      Hahahaha, eu lembro!!! E foi lá nos cafundós do Parque São Jorge, se não me engano.
      Sim, no Brasil é mais fácil de passar, vieste logo pro mais difícil, mas é bom que aqui seja assim, porque isso realmente nos força a estar super confiantes antes de sairmos por aí. Acho mais seguro, inclusive. No meu caso, tive que fundir alguns neurônios pra acostumar com esse lado da estrada, mesmo porque eu não sou muito coordenada. Agora, se quisesse voltar a dirigir no Brasil, acho seria sofrido e queimaria os neurônios restantes!

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