A flor do cardo

[Texto escrito em conjunto, com  Nicola Chiarei Garofallo]

É possível descrever o clima da Escócia? Viver aqui é bom mas é difícil.
A alma escocesa secular venta de todos os quadrantes.
Em Aberdeen e em outras cidades costeiras. Ventinho e ventão gelado.
Garoa que não é neve, não é granizo, garoinha fina chamada de “drizzle”, micro pedrinhas de gelo quase invisíveis.
Pelas janelas sempre um olhar interrogativo:
qual o volume de nuvens?
teremos minutos de sol?
a previsão vai acertar?
Impossível! Esquece!
Tudo é possível nas terras de William Wallace.
Mas isso fica para depois.
A flor símbolo da Escócia, em inglês, é a “Thistle” ou Cardo em nosso idioma. No ano 1263 os invasores do Norte entraram por terra para um ataque surpresa.Vinham descalços os guerreiros invasores.
Ao entrarem no território escocês pisaram nas lindas e espinhentas flores do Cardo.
Com os espinhos cravados nos pés choravam de dor. Comoveram seus comandantes e logo bateram em retirada desistindo do ataque.

Estava salva a ESCÓCIA!
Esta é a história contada como lenda.

Esta linda e silvestre flor, encontrada em campos e jardins é o símbolo do País tanto que foi comemorada e cunhada nas moedas de prata nos tempos de James III.
Não é por nada que este povo é defensivo, ousado e intransigente. Qualquer semelhança com a “Thistle” não é mera coincidência.
O clima da Escócia?
Geralmente o encontramos nas esquinas.
Passeamos despreocupados. Então ele aparece, assim, de surpresa, o implacável vento congelante.
Sem dó nem piedade entra pelo corpo e chega aos ossos gelando todos e principalmente o forasteiro ainda desacostumado da vida pelas lá pelas bandas do Mar do Norte.
Dizem que é por causa desse clima sofrido que os escoceses, desde os celtas, têm um espírito sábio, gentil e guerreiro. Domados pelo vento e pelo gelo.
Só pode ser isso!

O mundo cinza visto pelas vidraças salpicadas pela neve e pela chuva faz o homem mergulhar em si mesmo, sem a menor pressa, no ritmo interrogativo dos pensamentos.
Nas ruas encolhem os ombros, voltam os olhos para baixo, aproximam o queixo do peito é assim que se sente a presença de uma natureza que a cada minuto parece testar a resistencia dos seres vivos.
Deus seguramente passou por aqui, com muita pressa mas bem humorado, vamos entender assim.
Tudo é granito em meio a milhares de tons de cinza. Aberdeen é granite esculpido por mãos de artistas. Granito cinza.
Catedrais e torres de todos os credos erguem-se aos céus. Elevam-se canticos e orações pela cura do corpo, das feridas da alma e pelas graças recebidas.
Andar com o menos de bagagem possível.
Só o corpo agasalhado das orelhas aos pés é suficiente. Apenas roupas que cumpram seu papel primordial: proteger.
Mas são elegantes e afáveis os escoceses e assim é fácil encontrar o calor humano nos pubs e cafés e nos raros dias de sol pleno nos parques e praças da cidade.
Uma cena comum é ver casais de cabelos brancos de mãos dadas com suas capas de chuva e bengalas torneadas tomando chá com as fofuras em forma de tortinhas e biscoitos de todos os sabores na estação de trens, antes de embarcar para uma viagem de trinta minutos até alguma agradável cidadezinha do interior. Ou levar na viagem uma coleção de guloseimas lembrando delícias da vovó em tempos que não voltam mais. Não aqui!
Com isso tudo viver na Escócia tem sido aprender a apreciar as coisas simples e pensar como descobrir o melhor malte que traduz a alma desse povo.
Dezembro de 2015.
“Pela frente a pergunta de como seria aquela cinzenta cidade de granito.
A moça da Air France, quando soube que o destino era Aberdeen, franziu a testa e fez uma expressão de preocupação suspirando: “..hum…bastante úmido!”
Entretanto, chegamos por volta do meio-dia sem chuva. Quis manter meu entusiasmo e largamos nossas cinco malas no numero 25-C da silenciosa Jamaica Street para ir ao mercado fazer nossas primeiras compras. Foi nesse momento que me dei conta dos dias de aventura que estariam por vir. Enquanto corríamos com o carrinho pelos vários corredores do Sainsbury’s, sem ter a menor noção do que eu iria encontrar e muito menos do que eu teria capacidade de cozinhar, a nossa pequena Milena com idade de um ano e tres meses manifestou seus primeiros sinais de exaustão… Resultado: um pacote de macarrão, outro de vegetais congelados, leite, pão e eu a Milena sentadas chorando enquanto o Daniel pagava as compras. Seguiram-se meses de grandes descobertas que aos poucos foram nos conquistando e que aprendemos a adorar. Bem ao estilo dos valentes e afáveis guerreiros da antiga e histórica Escócia.”


Silvia Bueno Garofallo é cardiologista, gaúcha, e mora atualmente em Aberdeen, onde o marido, Daniel, faz doutorado em geologia.  É mãe da Milena, de 2 anos, e tem se dividido entre terminar de escrever a tese de seu doutorado, curtir a filha e se adaptar à vida na Escócia.

 

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6 Comentários

  1. SILVIA CASANOVA

    Que texto mais lindo e sensível! Fiquei com muita vontade de conhecer Aberdeen, apesar do clima que me assusta um pouco. Sei que escrever uma Tese já é uma tarefa mais que árdua, imagino misturada à uma mudança de país e com uma filhota pequena. Parabéns, você é guerreira! Felicidade sempre! Bjs direto de Botucatu, SP

    • Silvia

      Obrigada querida! O clima realmente é a parte mais difícil, mas tem muita compensação! O povo é maravilhoso!!! Beijos
      PS: desculpa a demora em responder… mas bebê e Tese às vezes dificultam…. kkk

  2. carina

    Que massa.
    Eu estava procurando “doutorado em geologia jamaica” e a primeira coisa que saiu foi essa página. Incrível.
    Ahh também sou gaúcha. E quero conhecer a Escócia um dia, Neist Point.

    • Silvia

      Carina!! Só vi seu comentário agora! Obrigada!! A Escócia é o berço e o paraíso da Geologia! Vais amar! Beijos

  3. Loiva Luiza Pozzer

    Lindo texto Dra Sílvia! Deu vontade de conhecer a Escócia. Um abraço

    • Silvia

      Loiva querida! Obrigada!!! Esse texto fiz em conjunto com meu pai… eu escrevi o esqueleto e ele deu a poesia!! É um país maravilhoso e inspirador… o que facilita a gente escrever!! Beijos

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