Hogmanay: 3 dias de muita festa, fogo e gelo.

Aqui na Escócia, as festas de Ano Novo são chamadas de Hogmanay, e duram 3 dias. O motivo de essa celebração ser tão grandiosa é que, por mais de 300 anos, o Natal foi proibido no país. Culpa da Reforma Protestante, que foi mais radical aqui que no resto da Europa. Os escoceses, então, transformaram a virada do ano em um super evento, pra compensar. O Hogmanay, hoje em dia, reúne tradições antigas e contemporâneas com festas de rua e shows pelo país todo.

No dia 30 de dezembro, acontece uma grande procissão de tochas em Edimburgo. Homens vestidos de Vikings (porque os escoceses são basicamente uma mistura de celtas, vikings e anglo-saxões) lideram o caminho, e quem quiser participar pode segui-los com uma tocha. Milhares de pessoas participam do trajeto, que termina no alto do Calton Hill, de onde então todos assistem a um show de fogos de artifício.

Procissão de Tochas. Fonte: The Scotsman.

Fonte: The Scotsman

Eu fui e fiz um vídeo da procissão pra mostrar pra vocês, live na fanpage do facebook. Cliquem AQUI para assistir.  A parte das gaitas de foles é linda.

Esses eventos com fogo são de origem pagã e têm propósitos de purificação e de representação do sol, que a partir do solstício de inverno (21 de dezembro no hemisfério norte) fica gradualmente mais forte.

Em Stonehaven, acontece a Cerimônia de Bola de Fogo, onde as pessoas rodopiam bolas de fogo amarradas por correntes por cima de suas cabeças.

Fonte: The Scotsman

Em Aberdeen, acontece a Parada de Bolas de Fogo, um desfile ao som de gaitas de foles com mais rodopios ousados de correntes e bolas de fogo pelas próprias cabeças.

Fonte: The Scotsman

Em Biggar, eles acendem uma fogueira imensa bem no meio da cidade. Imagino que, antigamente, aproveitavam para jogar umas bruxas também, aproveitando o embalo, mas hoje em dia a coisa é pacífica e muito útil pra dar uma aquecida no inverno.

Fonte: Biggar Hogmanay.

E por aí vai, com mais cidades, Escócia afora, acendendo fogueiras, fazendo desfiles de tochas e rodopiando bolas de fogo.

Aliás, eu acabei de me dar conta que, no Brasil, nós também adoramos acender fogueiras país afora na época do nosso solstício de inverno (21 de junho).

No dia 31 de dezembro, (depois de tratar as eventuais queimaduras) os escoceses se reunem com familiares e amigos e esperam a meia-noite com uma grande ceia cheia de haggis, oatcakes e – claro – whisky. Depois da contagem regressiva, dos abraços e dos wuhhuus!!, eles cantam a Auld Lang Syne, de mãos dadas. A canção fala sobre amizade, sobre não esquecer dos antigos amigos e sobre reencontros no futuro, então eu imagino que role muita emoção e muitos “te considero pra caramba” nesse momento. Segue o vídeo da música, originalmente escrita em Scots, que é o dialeto daqui:

É preciso ter muito cuidado, nesses primeiros momentos do ano novo. Uma superstição antiga diz que a primeira pessoa que bater à sua porta vai trazer a sorte do ano. A pessoa que traz mais sorte é um homem de cabelos escuros, preferencialmente trazendo carvão (muito útil, outrora) ou whisky (muito útil, sempre). A pessoa que você NÃO quer ver na sua porta na madrugada do dia primeiro é um homem loiro. Este é sinal de muito azar. Acredita-se que o motivo remonta as épocas de frequentes invasões vikings, quando um sujeito de madeixas aloiradas, na sua porta, assim de madrugada, definitivamente não era um bom sinal.

Então, se você for loiro e estiver por aqui no ano novo, por favor, não saia visitando as pessoas. Ao invés, vá para a super festa de rua que acontece em Edimburgo ou em outras grandes cidades e deixe a sorte dos outros em paz!

Dia 1 de janeiro é dia de acordar e, depois de dois dias de festejos e muito whisky, tentar curar a ressaca na marra. Acredita-se que foi por isso que surgiu a tradição do Loony Dook, em que os mais corajosos encaram o congelante Mar do Norte para um mergulho. Acontece sempre em hora marcada, porque barcos de resgate ficam a postos para resgatar algum loonie mais azarado. Alguns vão fantasiados, outros não, e a maioria fica ali, dançando um pouco, jogando água nos outros, mas o grande lance é mergulhar mesmo, e de preferência dar umas braçadas!

Loonies em Edimburgo. Fonte: Visit Scotland.

O Loony Dook se popularizou, e acontece mesmo em pequenos vilarejos, como o meu. Para mim foi uma surpresa, porque eu achava que era uma coisa só de Edimburgo e, tipo,  da Rússia. Fiquei sabendo na noite anterior, em uma festa, que todo mundo ia para a praia na manhã seguinte, para ou se jogar no mar ou assistir os que se jogam. Lógico que me joguei, porque a vida é curta e porque quero me inserir adequadamente na cultura local (aham!).

Eu sei que é difícil, para quem está no verão brasileiro, imaginar o que seja esse mergulho. É frio, muito frio. Aliás, gelado. Ou a outra palavra que vem depois. Eu não tive coragem de entrar no mar no dia mais quente do verão, quando estava fazendo 22 graus, e venho de um país tropical, então achei que ia morrer. Mas também achei que era um bom jeito de morrer, então encarei. “Como ela morreu?” “Congelada, mergulhando, no Mar do Norte…”. Chique!

Mas me surpreendi! Foi bem mais fácil do que pensei. Porque, depois que você tira o casaco e as outras muitas camadas de roupa, e já está tremendo mesmo, fica tudo meio igual. O pior, na minha opinião, foi pisar na areia. Ali eu tive o choque derradeiro. Eu corri para o mar porque queria desesperadamente parar de pisar naquela areia maldita que parecia neve e estava queimando meus pés de frio. Aí mergulhei e percebi que o mar estava mais gelado que a areia (duhnnn, né?!), mas algum mecanismo de defesa interno fez com que, em segundos, a água parecesse suportável. Dei umas braçadas, tranquila, e considerei nadar até a Dinamarca, mas o carinha do barco de resgate estava com cara de quem não ia me deixar. Aí eu voltei para a areia pensando que ia ter que correr para uma toalha e um cobertor mas tcharam…que calor é esse meodeos? A areia estava menos fria, e o ar estava agradável. Fiquei um tempão ali, sem me vestir, recebendo congratulações escocesas pelo meu tolo ato de bravura – que eles consideraram ainda mais bravo/tolo por eu ser brasileira.Só me vesti porque eu sabia que deveria, mas eu não estava com frio. Não. Mesmo. Juro!

E com isso eu fico imaginando que esse pode ser um bom truque para quando se está passando frio. É só procurar uma água gelada, submergir por uns segundos e quando volta, uau, que calor! Funciona!! Aqui tem muitos lochs gelados, então fica fácil passar o inverno dando um pulinho em um ou outro para se aquecer.

Fotos do mergulho, porque algumas almas incrédulas pediram provas do meu feito. Eis!! E ano que vem eu vou de novo!! Guid Hogmanay tae ye aw!! 

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10 Comentários

  1. Rodrigo Trindade

    Otimo e lindo relato!!! Ri alto ao pensar no diálogo de como morreste! 😀 mas confesso que jamais teria tal ato de bravura. No Morro dos Conventos, pra mim, é um banho por ano, no dia mais quente do capeta! E olhe lá! Parabens!

    • Anelise

      Hahahaha, obrigada!!! Estou muito orgulhosa de mim mesma porque, pra te falar a verdade, eu achei mais que ia desistir mesmo!!

  2. Marli Ozzetti

    Parabéns. Adorei seu texto. Fiquei encantada. Você é uma mulher muito corajosa. Sempre gostei da Escócia e suas tradições. Um maravilhoso ano para você direto de São Paulo com a temperatura em 33 graus (trocaria com você). Abs

    • Anelise

      Obrigada, Marli!! A Escócia é encantadora, sou apaixonada por esse lugar e participar das tradições deles tem sido uma alegria imensa pra mim, mesmo quando elas envolvem um leve sofrimento, como o Loony Dook, hehehehe! Obrigada por ler e acompanhar, se eu pudesse mandava um ventinho escocês gelado praí! Abraços!!

  3. Dulce

    Amei teu relato Isi. Agora já és quase uma escocesa!!!

    • Anelise

      Obrigada!! Se eu bebesse whisky, a transição estaria completa, mas isso não vai acontecer tão cedo, hahahaha!

  4. Súlia

    Que maravilha, já quero passar meu aniversário aí, 01/01!! Pensa a festa! Adoro como vc escreve, não tem como ficar imune às risadas… Bjo

  5. Natalie Coppini

    Amei!!! São costumes e rituais tão diferentes e ao mesmo tempo tão fascinantes!!! Queria poder passar um ano nesse país lindo e viver tudo o que vc escreve com tanto carinho!!!!

    • Anelise

      Sim, adoro tudo aqui. O carinho na escrita sai naturalmente, reflexo do imenso amor que tenho pela Escócia!! Bom saber que consigo passar isso adiante! 😉

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