Esse é o nosso primeiro Halloween na Escócia, e eu estava ansiosa para saber como é comemorado por aqui. A festa tem origem celta, e foi levada para os Estados Unidos – de onde se popularizou para o resto do mundo- por imigrantes irlandeses e escoceses.  Mas não é nem de longe o evento gigantesco que é para os americanos. Eu tenho a impressão que, aqui, as coisas ainda são mais simples, mais como antigamente. Tem, claro, muita coisa pra vender nas lojas e é uma data bem aproveitada pela mídia e pelo mercado, mas o que me chama mais a atenção são as pequenas festas de vilas e as celebrações pagãs que ainda existem.

O dia 31 de outubro é o fim do ano no calendário celta, e era chamado pelos druidas escoceses de Samhuinn. Nessa data, diz a lenda, a fronteira que separa o mundo físico do espiritual se torna mais etérea, permitindo que fantasmas, fadas e outros tipos de seres sobrenaturais vaguem pelo nosso mundo. Como de costume, a Igreja Católica deu novos nomes e significados às celebrações pagãs que já existiam, e assim o Samhuinn se tornou o Halloween, que  é a contração de Hallow’s Eve (Dia de Todos os Santos).

Mas os esforços para abafar a celebração antiga do Samhuinn, pelo menos por aqui, foram em vão. Quem estiver em Edimburgo nessa época do ano, e quiser presenciar um festival pagão típico, é só ir até a Royal Mile na noite do dia 31 de outubro. Uma procissão de pessoas, representando as forças e os espíritos da natureza, percorre a antiga via medieval carregando tochas, e depois fazem uma apresentação teatral de uma batalha em que o Inverno vence o Verão, assistidos pela deusa celta Cailleach. A transformação do Verão em Inverno é representada por meio de danças, música e fogos. O evento é gratuito e aberto ao público, basta chegar e encher os olhos.

 

Samhuinn 2012 Samhuinn 2012 - Interested in finding out more? Visit the Beltane Fire Society page on Facebook! https://www.facebook.com/beltanefiresociety http://www.flickr.com/photos/winpenny/ © Richard Winpenny / Winpenny Media

© Richard Winpenny / Winpenny Media

Samhuinn Fire Festival performers in Edinburgh's Grassmarket

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Informações na página do evento:

https://www.facebook.com/events/1404563116240499/

Mais de acordo com o que conhecemos do Halloween, acontecem as festas nas escolas, nos pubs, em casas de pessoas. Aqui na vilinha onde moro, que tem cerca de mil habitantes, ocorreram várias dessas durante o final de semana. Fomos em uma festinha infantil no Hall da igreja, pela manhã. Estava tudo enfeitado, tinha competições de lanternas de abóboras, brincadeiras, comida. Mas tudo muito simples, sem muita preocupação com aparências, sem perfeccionismo.

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Algumas crianças estavam super fantasiadas, outras nem tanto, e tinha até um menininho sem fantasia nenhuma, a mãe dele só fez uns bigodinhos de gato nas bochechas dele e pronto, foi assim e com roupa normal. Talvez ela não tenha tido tempo pra providenciar uma fantasia, ou talvez ele não tenha aceitado colocar a roupa certa (crianças…), não importa, estava assim. E o melhor: ninguém deu a mínima, muito menos ele. Ninguém achou ruim, ninguém olhou virado, todo mundo é igual e se diverte igual, sem pressão e sem frescura. São dois aspectos da Escócia que gosto muito e que vivo testemunhando: 1) todo mundo pode ser como quiser;  e 2) o simples é apreciado.

Antigamente, as lanternas eram cavadas em nabos e batatas. Os americanos que popularizaram a ideia das abóboras, facilitando a vida das pessoas, porque elas são mais fáceis de modelar.  Outra coisa diferente é que aqui eles não chamam o costume de as crianças sairem fantasiadas pedindo doces de trick or treating, chamam de guising. E uma das brincadeiras prediletas – e que eles dizem ser escocesa – é dookin’ for apples, aquela em que crianças devem tentar pegar maçãs em uma bacia d’água com a boca (ou com um garfo, para os menores). Um outro jogo popular é o de comer donuts que ficam pendurados em cordas sem usar as mãos. E nem sempre o guising é simples. Muitas vezes, pra ganhar doces, a criança tem que fazer alguma coisa, como falar uma rima ou fazer uma performance associada à fantasia, ou vencer algum desafio, como espiar um “monstro” dentro de uma caixa ou algo assim. As famílias mais criativas sempre inventam alguma coisa.

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Lanterna de Nabo

 

Nessa época também acontecem vários eventos nos castelos, como ghost tours e witches tours, onde se pode conhecer histórias misteriosas e sobrenaturais (e ficar sem dormir pelo resto da semana). Seguem links para alguns deles:

https://www.historicenvironment.scot/visit-a-place/whats-on/event/?eventId=98fdd118-f684-48b3-bc66-a65f0104ed68

http://scone-palace.co.uk/whats-on/all-hallows-eve-spirits-scone-twilight-illuminations

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Enfim, pagão ou não, assombrado ou não, o Halloween é sim uma das festas mais queridas por aqui, e ajuda a dar uma animada nessa época em que os dias ficam cada vez mais curtos e as árvores cada vez mais secas. Aliás, o cenário é perfeito. 😉