As Pedras Mágicas da Escócia

Ao contrário do que fãs da Diana Gabaldon possam acreditar, a ideia de que pedras antigas possam ser mágicas não é nada original. A autora de “Outlander” se inspirou nas várias histórias já-existentes sobre esses lugares ao escrever sobre Craig Na Dun, um círculo de pedras fictício que foi montado com pedras de isopor, na região de Perthshire, para as filmagens (já falei sobre isso neste post aqui). No livro, a mocinha Claire viaja no tempo ao tocar em uma das pedras do círculo, e volta para as Highlands do século XVIII. Lá, ela se torna um ímã de encrencas e se apaixona por um escocês que, milagrosa e ficticiamente, possuía uma aparência limpa, com todos os dentes e demais atributos que os homens daquela época dificilmente teriam. Pra quem ainda não conhece a história, e quer conferir, existe também o seriado.

Fora da ficção, relatos sobre estranhas sensações e histórias passadas em círculos e outros locais pedregosos sagrados da Escócia são documentados há séculos. Uma rica cultura de folclore e mitos existe sobre essas misteriosas pedras, tanto sobre suas origens quanto sobre os poderes que elas supostamente teriam. Seguem algumas dessas histórias:

Clava Cairns

Dizem que foi este local que inspirou Diana. Clava Cairns fica perto de Inverness, e é uma formação da Idade do bronze que mistura círculos de pedras com cairns – os montes de pedra. Os cairns possuem entradas que estão alinhadas no sentido sudoeste. No solstício de inverno, a luz do sol poente entra de forma perfeita e ilumina as câmaras centrais.

Clava Cairns
F

Este é um dos lugares mais misteriosos da Escócia. Não se sabe ao certo para quê serviam os cairns, mas imagina-se que tenham sido um local cerimonial e de sepultamento. Visitantes relatam sentir tonturas, enjoos, lapsos de memória e outras sensações estranhas. Uma história famosa recente é a de um turista belga que retirou uma pedra do local e levou para casa como lembrança. Meses depois, enviou a pedra para o escritório de turismo de Inverness, junto com uma carta anônima se desculpando e explicando que, desde que levou a pedra, uma espécie de maldição aconteceu: ele quebrou a perna, a esposa ficou cronicamente doente, ele perdeu o emprego, quebrou o braço, o cachorro morreu e etc.

Clava Cairn é um dos lugares mais visitados por fãs de Outlander, e tem sofrido uma série de vandalismos por causa disso. Os responsáveis pelo local relatam que os fãs muitas vezes sobem nas pedras, retiram-nas do lugar, tocam excessivamente em tudo, e até escrevem nas pedras, prejudicando esse sitío arqueológico tão importante. Existem até um relato de um grupo de fãs que ficaram horas por lá e foram flagradas fazendo uma espécie de sessão medíunica na qual tentavam contatar o espírito de James Fraser (personagem FICTÍCIO de Outlander). Confesso que me divido entre achar essa história extremamente engraçada ou extremamente irritante…

Calanais Standing Stones

Este círculo, localizado na Ilha de Lewis, é considerado um dos mais antigos. Pesquisas recentes confirmaram que as pedras foram deliberadamente alinhadas com as órbitas do sol e da lua. Assim como o Clava Cairns e todos os outros, seu propósito é incerto. Existe um lenda que fala de uma vaca mágica que surgiu do nada e produziu leite no círculo de pedras, salvando os moradores da ilha da fome.

Calanais

A vaca, branca com orelhas vermelhas, surgiu do mar quando uma mulher desesperada contemplava as águas com a intenção de se afogar. O animal falou com ela em uma voz suave, dizendo para ela ir para casa buscar o balde de leite e avisar as vizinhas para fazerem o mesmo e irem até as pedras de Calanais. Todas as noites, a vaca produzia um balde para cada pessoa, e era essa a regra. Até que uma mulher apareceu com um balde sem fundo e secou a vaca, acabando com a alegria do povo.

Clach-na-Bhan – A Pedra das Mulheres

Mulheres viajavam de longe até esta pedra sagrada, na esperança de aumentar as chances de uma gravidez e de um bom parto. Mulheres solteiras também peregrinavam acreditando que a pedra as ajudaria a encontrar um marido. Elas se sentavam na pedra, que possui uma parte naturalmente cavada em seu centro e ali faziam seus desejos.

Clach-na-Bhan

Granny Kempock

Este monólito de quase 2 metros está em uma rua central de Inverclyde, e é fonte de muita superstição. Diz a lenda que era originalmente um altar de druidas, e acreditava-se que a pedra trazia boa sorte para recém-casados e pescadores que andassem ao redor dela sete vezes, carregando um cesto de areia.

Em 1662, uma mulher chamada Mary Lamont foi acusada e queimada como bruxa após ter confessado seu plano de derrubar a pedra. Precisava pouco, naquela época, pra acender a ira das estacas e fogueiras…

Pedra de Quoybune

Dizem que esta pedra, que fica no meio de um campo nas Ilhas Orkney, se move à meia-noite da virada do ano. Acredita-se que, na noite de Hogmanay, ao som das 12hs do relógio, a pedra se move até o lago e mergulha sua ponta na água. Mas quem presenciar o fenômeno não vive para ver outro ano, de acordo com a lenda. Alguns desafortunados foram mesmo encontrados mortos perto da pedra, na manhã do dia primeiro.

Existe uma história de um jovem ousado que, não acreditando na lenda, saiu para ver a pedra um pouco antes das 12hs. À medida que o tempo passava, e chegava mais perto da meia-noite, ele foi se sentindo aterrorizado, tomado por uma sensação estranha, e perdeu a consciência, sendo encontrado pelo amigos no dia seguinte. No que ele não soube afirmar se seria um sonho ou uma lembrança confusa, a pedra bateu nele e o derrubou.

O Anel de Brodgar, Pedras de Stenness e a Pedra de Odin

Muitos acreditam que o Anel de Brodgar, um círculo de 27 pedras nas Ilhas Orkney, era um templo de rituais druidas, que possivelmente incluiam sacrificios humanos. O folclore local afirma que as pedras eram gigantes que dançavam na noite e foram petrificados pelo nascer-do-sol. O Anel de Brodgar é o terceiro maior círculo de pedras das Ilhas Britânicas, com um diâmetro de 104 metros e pedras que variam entre 2 a 4 metros de altura.

Anel de Brodgar

Muito tempo depois, se tornou um local onde jovens iam para declarar o seu amor. Colin Richards, autor de um livro sobre o círculo, conta que um acsal apaixonado caminhada até a Pedra de Stenness, conhecido como Templo da Lua, onde a garota se ajoelhava para rezar para o deus Odin. (Lembrando aqui que a menção a Odin não é estranha, já que as ilhas do norte foram basicamente colonizadas por vikings).

Pedras de Stenness

Depois, o casal caminhava mais de um quilometro até o Anel de Brodgar, conhecido como Templo do Sol, onde era a vez do garoto se ajoelhar e rezar para o mesmo deus. Depois, ambos iam até a pedra de Odin, ficavam cada um de um lado dela, e se davam as mãos, pelo buraco natural da pedra, fazendo o juramento de Odin, que era considerado como uma afirmação formal de um compromisso. As pessoas que faziam esse ritual podiam se casar depois na igreja, mas jamais apenas um com o outro. A pedra de Odin foi destruída em 1814, botando então um fim ao ritual.

Desenho antigo da Pedra de Odin.

Machrie Moor

Localizado em Arran, esse conjunto de 5 círculos de pedras tem mais de 2500 anos de idade. Dizem que eram fadas que costumavam se reunir ali e foram petrificadas. Outra lenda diz que os círculos foram construídos pelos celtas depois de derrotarem invasores vikings.

The Old Man of Storr

Uma das rochas mais famosas da Ilha de Skye é a Old Man of Storr, com 72o metros de altura .

The Old Man of Storr

Existem muitas lendas sobre esta rocha. A mais popular delas conta que, antigamente, a Ilha de Skye era habitada por gigantes. O Old Man of Storr era um desses gigantes, que foi enterrado ali quando morreu, mas seu polegar ficou pra fora. Outra lenda conta que o Old Man of Storr estava fugindo de outros gigantes, com a esposa, quando cometeram o erro de olhar pra trás, e aí viraram pedras. A outra rocha – que diziam ser da esposa – dele tombou anosmuitos anos.

A Pedra da Coroação – ou Pedra do Destino

Segundo a lenda, esta pedra, conhecida como Scone Stone (porque costumava ficar na Abadia de Scone) ou Pedra do Destino, era usada na coroação de reis celtas, e foi trazida da Irlanda para a Escócia há muito, muito tempo. Ela estaria, supostamente, imbuída de uma magia muito poderosa que garantia a legitimidade do poder de quem fosse coroado sobre ela. Foi usada como pedra da coroação de todos os reis da Escócia e, com a união dos reinos, foi levada para Londres e é usada até hoje. Na coroação da rainha Elizabeth II, a pedra ficou embaixo do trono.

Trono da coroação, com a pedra do destino encaixada embaixo.

Na noite do Natal de 1950, quatro universitários nacionalistas escoceses roubaram a Pedra da Abadia de Westminster e a trouxeram de volta pra Escócia. A pedra só foi reencontrada no ano seguinte, e estava na Abadia de Arbroath, local da “Declaração de Arbroath”, que foi uma espécie de declaração de independência da Escócia, em 1320. A história virou posteriorimente um filme, chamado “The Stone of Destiny”. A Pedra só foi levada de volta para Westminster em 1952 e, em 1953, foi usada na coroação de Elizabeth II.

A Pedra do Destino foi devolvida para a Escócia em 1996, e está hoje em exposição no Castelo de Edimburgo, juntos com as outras joias da coroação. Eu já havia contado um pouco sobre ela neste post aqui.Quando o próximo rei for coroado, essas joias serão levadas até Westminster para a cerimônia.

As joias da coroação, conhecidas como “Honours of Scotland”: o cetro, a pedra do destino, a espada e a coroa.

A Pedra das Bruxas

Existem várias “pedras das bruxas” por aqui. Mas uma das mais “mágicas” é a de Bo’ness, um pequeno vilarejo a oeste de Edimburgo. Entre 1648 e 1704, dezenas de pessoas foram condenadas e queimadas por bruxaria naquela região, mulheres na imensa maioria. Uma das últimas, Anna Wood, foi acusada de fazer parte de um grupo de bruxas da região e de ter pactos com o diabo. Um homem chamado Robert Nimmo testemunhou contra ela, dizendo ter visto a bruxa se transformar em gato e depois em pássaro. Sabendo que seria acusada, ela escapou e nunca mais foi vista – ao menos não em forma humana, dizem. O local onde queimavam as bruxas, uma clareira em um bosque, se tornou alvo de superstição local. Diziam que a grama não crescia no pedaço onde havia a fogueira. Hoje existe uma pedra lá, e as pessoas vão ao local prestar homenagem a essas mulheres e fazer pedidos para elas. Diz a lenda que se deve escrever o pedido em um pedaço de papel, caminhar com ele na mão ao redor da pedra um número de vezes, recitando um verso específico, e depois enterrar o papel perto da pedra.

Pedra das Bruxas

Como perceberam, não há problemas que as pedras mágicas da Escócia não consigam resolver. A não ser o fato de James Fraser ser realmente fictício, e não tem pedra, ritual ou sessão mediúnica que mude isso. Sorry, lassies.

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  1. Ana Paula

    Anelise, amei seu post!! Me fez voltar para Escocia e lembrar de vc contando as incríveis histórias de cada lugar que visitamos.
    Obrigada por compartilhar tudo isso!

  2. Fabiane

    Parabéns pelo post, adoro saber dessas coisas, quando eu for para a Escócia pretendo visitar todos esses lugares!

  3. Que post excelente!!!!
    Eu ia lendo e parecia que estava ouvindo você contando as histórias. Em alguns momentos até lembro de você contando elas e apontando para as pedras (lembro mto a gente na estrada e você mostrando a The old man off Storr).
    Parabéns e obrigada por sempre passar seus conhecimentos!

  4. Gostei de ler sobre essas histórias. Lembrei das pedras do Itaguaçu, em Floripa, que seriam bruxas poderosas que se reúnem ali em datas especiais. Franklin Cascaes teria adorado passar uma temporada na Escócia.

  5. Diene Alves

    Amo essas histórias !!

  6. Fernanda alves

    Fiquei tão apaixonada pela história que as vezes no meio da leitura , me senti vivendo a própria.v

  7. Eu amei ler sobre essas histórias ❤️
    Quero muito conhecer elas um dia

  8. Mariana

    Estou assistindo Outlander e reconheci no circulo de pedra uma forte influencia do monumento da Ilha de Lewis e a maioria dos sites se limita a dizer que Craigh na Dun nao existe… é muito bom confirmar que existe sim relaçao entre o monumento fictício e o real. Obrigada

  9. Anne Marques

    Estou muito animada ,quero muito ir à Escócia ,SONHO

  10. Cibele Vicino

    Adorei seu post parabéns.
    Estou indo para a Escócia em março.
    Como faço para conhecer esses lugares incríveis?
    Obrigada

    • Anelise

      Oi Cibele, o jeito mais fácil é prático é fazer um tour privado, porque aí você inclui o que quiser no roteiro, sem se limitar aos já prontos de ônibus (que não vão pra quase nenhum desses lugares do post). E também evita as frias que podem acontecer se tentar ir sozinha, pois muitos deles são afastados e nal sinalizados. Se vier, me manda um email que explico como posso te ajudar.

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